O avanço do ensino bilíngue no Brasil. E os benefícios para escolas e estudantes

Falar um segundo idioma virou mandatório no século 21. Não só pelas relações em um mundo cada vez mais globalizado. Mas também pela perspectiva profissional. Uma pesquisa da Catho, divulgada em 2022, constatou que, na média, a fluência em inglês pode aumentar o salário em 83% – em cargos de consultoria e de coordenação, a valorização é ainda maior: 118% e 90%, respectivamente.

Nas escolas tradicionais brasileiras, o idioma sempre encontrou barreiras para que fosse lecionado adequadamente. A boa notícia é que, na falta de políticas públicas estruturadas, surgiram várias alternativas. É o caso das escolas bilíngues, que atraiu crescente interesse nos últimos anos. De acordo com a plataforma Google Trends, que mede o volume de pesquisas na internet, o termo “ensino bilíngue” tem procura consistente desde 2017. Não por acaso, o número de escolas bilíngues cresceu 10% no Brasil entre 2014 e 2019, de acordo com o último dado disponível pela Associação Brasileira do Ensino Bilíngue (Abebi). Não há informações atualizadas desde a pandemia, mas a tendência é de expansão – inclusive nas instituições de menor porte.

Essas instituições se caracterizam por oferecer um currículo único – o brasileiro –, integrado e ministrado em dois idiomas. É diferente das escolas internacionais, geralmente vinculadas a outros países, com currículos estrangeiros e mais caras. Segundo um estudo da consultoria JK Capital, mencionado pela revista Exame, uma instituição tradicional com currículo bilíngue tem mensalidade até 50% mais barata do que suas irmãs mais radicais. Isso porque o investimento em um sistema bilíngue é muito inferior à estrutura de uma escola internacional.

No entanto, apesar da crescente expansão, o número de instituições bilíngues é diminuto no País. Acredita-se que apenas 3% das 40 mil escolas privadas no Brasil adotam o sistema. Isso é pouco se comparado aos países vizinhos. No Uruguai, no Chile e na Argentina, o percentual é de 10%. Ou seja: ainda há muito para avançar. E isso é um bom negócio tanto para as escolas quanto para os estudantes e suas famílias.

Vantagens do sistema bilíngue

O Colégio Ciências Aplicadas de Natal, no Rio Grande do Norte, é uma das instituições privadas que investiu em um sistema de ensino plurilíngue. Há currículos em francês e em inglês. Neste, a adoção se deu por meio do Twice, que oferece material didático, lúdico e alinhado à BNCC (Base Nacional Comum Curricular) – justamente para garantir a comunicação entre o inglês e o projeto pedagógico em português. Além disso, oferece capacitação docente e conta com uma ferramenta gamificada e personalizada de aprendizado para os alunos.

Nesse compasso, o sistema bilíngue aumenta a receita das escolas, já que o investimento é repassado na mensalidade. Isso permite aos colégios, inclusive, absorver boa parte dos estudantes dos tradicionais cursinhos de idiomas.

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Já aos alunos, o método amplia habilidades intelectuais e socioemocionais, cria mais oportunidades acadêmicas, agrega competitividade no mercado de trabalho do futuro e enriquece o repertório cultural e linguístico. “Se você pensar no aluno que entrou agora no primeiro ano do ensino fundamental, ele deve estar no mercado de trabalho daqui a 15, 20 anos. Pense no mundo daqui duas décadas: muitas profissões que existem hoje deixarão de existir e centenas de outras vão aparecer. Então a gente precisa ter um tipo de preparo mais globalizado, mais transversal, para poder deixar esse aluno em condição de competitividade lá na frente”, afirma o professor Alexandre Pinto, diretor do Ciências Aplicadas.

Quanto mais inglês na rotina, melhor

Para melhor compreender o status da língua estrangeira nas escolas do Brasil – um país onde apenas 5,1% da população afirma ter algum conhecimento de inglês, segundo a pesquisa “Demandas de Aprendizagem de Inglês no Brasil” –, o Escritório Regional de Língua Inglesa (Relo) da Embaixada e dos Consulados dos EUA no Brasil, juntamente com a startup ChatClass, realizou uma extensa pesquisa denominada “Ensino e Aprendizagem de Língua Inglesa no Brasil: Desafios e Oportunidades”. Os dados foram coletados em 2020 com 18.304 pais e responsáveis, 4.143 professores e 137.015 alunos do Ensino Fundamental II e Médio, que também fizeram um teste de conhecimentos no idioma.

Quando questionados sobre os desafios da aprendizagem, 50% dos estudantes responderam que a exposição à língua inglesa era o maior problema. Aqui, o sistema bilíngue acaba se saindo muito melhor do que o ensino do idioma como disciplina. Afinal, o sistema bilíngue se caracteriza pelo ensino integrado de componentes curriculares em duas línguas – bem diferente da tradicional aula de inglês, que se restringe a um horário específico em alguns dias da semana.

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O relatório do Relo também indica que o sistema educacional deveria introduzir o ensino de língua inglesa mais cedo e de forma mais cotidiana na vida dos alunos, incorporando aspectos sociais e culturais, algo comum em escolas que postam no bilinguismo.

“A educação bilíngue transforma quem dela participa: por envolver duas ou mais línguas, ela abre possibilidades, expande olhares, problematiza como nos fazemos parte da sociedade e como nos vemos nela, modifica quem somos e, por vezes, destaca diferenças culturais e sociais que não nos chamariam a atenção se estivéssemos em um espaço monolíngue”, destaca Renata Condi de Souza, doutora em linguística aplicada e estudos da linguagem, em artigo sobre o tema.

Para Alexandre Pinto, do Ciências Aplicadas, a maior vantagem da escola bilíngue é o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. “[O bilinguismo] realmente ajuda os estudantes a terem uma desenvoltura melhor. Isso acontece até em português, porque eles começam a entender estruturas gramaticais diferentes. É o ganho de oferecer uma formação mais sólida.”

Em 2020, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou novas diretrizes para regulamentar a modalidade bilíngue. As regras ainda não foram homologadas pelo MEC (Ministério da Educação). A expectativa, no entanto, é que as escolas bilíngues respeitem parâmetros nacionais, como formação de professores, avaliação de resultados e carga horária. Em uma entrevista recente ao Portal Rhyzos, o professor Ivan Siqueira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que participou das deliberações do CNE em Brasília, ofereceu um panorama do ensino bilíngue no Brasil.

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